Outro dia ao verificar minha caixa de e-mails, me deparei com uma sequências de repostas a uma única mensagem. Não consegui ler tudo. Estava um saco! De um lado um “carnívoro” convicto, e do outro um vegetariano, quase vegano, também convicto. O que mais me impressionou no que li nestes e-mails foi a grande necessidade que um tinha de convencer o outro que o seu ponto de vista era o mais adequado.
É estranho como as coisas são. A discussão pra mim soou semelhante aquelas velhas briguinhas infantis a respeito de futebol: "meu time é melhor que o seu, ganhou 100 campeonatos e, o seu, apenas 99." Acredito que a questão não seja essa. Vivemos num mundo cheio de diferenças, e ainda vivemos!
Temos culturas que admite a mutilação feminina, outras que comem baratas e escorpiões, e cada uma justifica seu ponto de vista, ferrenhamente, retirando argumentos inimagináveis de onde menos esperamos.
E por que isso existe? Imagino que como não somos iguais pensamentos diferentes existem e, culturas se formam com um grupo de pessoas que têm pensamentos parecidos.
Nesta questão da carne, o que é o melhor a se fazer? Depende. Tente explicar a uma senhora de 80 anos que comeu carne a vida inteira que ela pode fazer mal. Ela vai dizer que isso é um absurdo, pois está perfeitamente saudável.
Eu nasci numa família onde sempre se comeu carne, fazíamos churrascos, comíamos cachorro quente (apesar de muitos falarem que salsicha não é carne, na teoria ainda é). Uma boa refeição para nós era arroz, feijão uma saladinha e um bom pedaço de carne!
Eu cresci e entrei pra faculdade. Comecei a estudar os processos que ocorrem no meio ambiente e os impactos provenientes deles. Me assustou saber que existia menos água para consumo no planeta do que eu imaginava. Depois comecei a estudar cadeias alimentar e impacto dos efluentes no meio ambiente.
Ai formei o seguinte nexo causal: o vegetal é um produtor, único capaz de assimilar energia solar. Ele necessita de água. Quando se cria qualquer animal ele está comendo esse vegetal bebendo água e defecando. Além disso,no abate ele perderá trocentos litros de sangue que,junto com suas fezes, chegarão a um lago ou rio, aumentando a Demanda Bioquímica de Oxigênio e causando a mortandade de certos tipos de peixes. Por sua vez esses peixes que morreram, além de virarem mais resíduos no meio ambiente, deixarão muitas pessoas que vivem dos recursos dos rios em uma situação desfavorável.
Seguindo uma lógica de aproveitamento de recursos no processo, comendo vegetais é possível diminuir significativamente de lixo e de cocô no nosso planeta e aumentar a quantidade de água disponível.
Um outro motivo foi por que eu não gosto de sentir dor. Uma queimadura leve dói pra caramba. Fiquei imaginando o quanto dói ser queimado com um ferro tão quente, capaz de deixar uma marca perpétua no corpo.
Uma vez alguém tentou contra-argumentar que o planto de soja era pior por que desmatava a Amazônia. Não respondi. Sou a favor de discussões saudáveis, que visam uma melhoria, um entendimento entre as pessoas, não essas do tipo que só desgastam.
Conversando com outras pessoas surgiu o argumento que os animais são irracionais e estão ai pra servir os humanos. Lembrei imediatamente do meu cachorro, Lobão. Ele era “inteligente pra burro”. Me ajudava nas horas difíceis. Quando eu caia ele ajudava-me levantar. Fazia cocô no terreno na frente da minha casa. Se a gente saia de casa e não abria o portão quando a gente chegava estava ele esperando, chamando. Nunca vi ninguém tão leal quanto ele. Um verdadeiro amigo. Ai um dia meu irmão cansado dos carrapatos dele deu um sumiço no Lobão. Ele voltou depois de 3 dias todo sujo e machucado. Depois ele “sumiu” de novo e não voltou mais. Fiquei sabendo disso há pouco tempo e a primeira coisa que me veio a cabeça é que as atitudes do meu cachorro eram mais racionais e dignas do que as do meu irmão. Caramba! O ser irracional é mais sincero, dedicado zeloso do que o racional!
Vi também o documentário a carne é fraca. A cena que mais me impressionou não foi o sangue, as pessoas falando o quanto carne faz mal. Foi a cena do boi vendo o outro cair morto e tentando recuar. Depois dessa, não deu mais.
Uma coisa é alguém morrer por um ideal, por livre espontânea vontade. Outra completamente diferente é assassinar um ser por um ideal que ele não compartilha. Me pergunto como me sentiria se alguém me retirasse da minha família assim que eu nascesse, me colocassem numa jaula apertada esperando eu crescer. Colocassem esperma em minha vagina esperando que eu desse a luz, depois afastassem meu filho de mim, o matasse e dessem de comida para outros. Comecei a me questionar até que ponto esse raciocínio era absurdo e até que ponto isso era coerente.
Muitas pessoas podem contra argumentar o que eu disse. E isso é o que eu acredito no fundo do coração. Estou melhorando a cada dia depois que comecei a agir de acordo com minhas convicções. Acredito que a violência em qualquer das suas formas é um atraso de vida. Busco a paz entre os seres, a harmonia e, ainda pratico violência às vezes. Modificar-se é uma tarefa muito árdua e desgastante. Busco a coerência entre meus pensamentos e ações e ainda sou muito incoerente! Mesmo não entendendo procuro respeitar as pessoas e, nem sempre consigo! Estamos juntos neste mundo!